pelo Major V. V. Selivanov
O inimigo aumentou sua atividade na província de Lowgar em agosto de 1985. A guerrilha atacou Cabul pelo sudeste, atacou comboios civis e militares e postos de segurança soviéticos e afegãos. De acordo com os relatórios da inteligência do serviço de segurança afegão, destacamentos avançados da guerrilha estavam localizados na área que circundava as vilas de Khurd-Kabul, Malang, Kala e Malikhey’. Um total de 500 a 600 homens, divididos em 10 a 15 unidades de guerrilha estavam homiziados naquela área. A principal concentração de forças de guerrilha estava localizada a 15 ou 20 quilômetros ao sudeste dessa área. Lá, na vila de Tizini-Khas, eles montaram cachês de armamento e munição, guardados por 300 homens armados com metralhadoras pesadas DshK e morteiros. O governo afegão decidiu eliminar os ataques a Cabul estabelecendo um acampamento no Vale Lowgar, mobiliado por um batalhão “Sarandoy”.
A divisão aerotransportada recebeu ordens de destruir a força de guerrilha. O comandante da divisão decidiu deslocar em sigilo suas unidades para esta operação entre 9 e 11 de agosto. Então, de 11 a 18 de agosto, ele poderia cercar e destruir os destacamentos avançados do inimigo e evitar o seu retraimento para a sua base principal.
Dois regimentos aerotransportados foram selecionados para esta operação. Um dos regimentos estava reduzido a um batalhão e o outro estava reduzido a dois batalhões. O comandante da divisão reforçou-os com uma companhia de reconhecimento do regimento restante, uma companhia de reconhecimento destacada, um batalhão de sapadores, um batalhão de carros de combate e um regimento de artilharia (que estava reduzido a um batalhão). Dois grupos de reconhecimento foram formados – um pela companhia de reconhecimento do regimento restante e outro pela companhia de reconhecimento destacada. Sua missão era conduzir uma infiltração de 50 km de profundidade em 13 de agosto para bloquear dois cânions ao sul do vale da província de Lowgar. O corpo principal da força (três batalhões aerotransportados) realizariam o assalto aeromóvel na área ao norte de vila de Khurd-Kabul, atacariam o inimigo e impediriam que ele retraísse para o sul. Então, junto com os grupos de reconhecimento, o corpo principal completaria a destruição do inimigo.

Entretanto, este planejamento foi frustrado pelos destacamentos avançados da guerrilha, que atacaram o novo acampamento afegão do batalhão “Sarandoy”. O batalhão não apenas abandonou o combate e sim fugiu do acampamento em pânico. O comandante da divisão decidiu então que, ao invés de ter dois grupos de reconhecimento se deslocando para as áreas planejadas, seria melhor combinar os dois grupos em um único e reforcá-lo com um grupo de sapadores. Este novo grupo realizaria um assalto aeromóvel a leste da Vila de Malikheyl’ e estabeleceria uma posição de bloqueio no cânion.
O grupo de comando do destacamento de reconhecimento e a companhia de reconhecimento regimental estavam na primeira vaga do assalto. A segunda vaga era composta pela companhia de reconhecimento destacada e pelo batalhão “Sarandoy”. Helicópteros de retransmissão permaneceriam orbitando sobre a área da batalha durante todo o dia, para assegurar a manutenção das comunicações.
O vôo da infiltração durou trinta minutos. As duas vagas pousaram na encosta oeste do cânion e se deslocaram para o sul, sob intenso fogo inimigo de metralhadoras DShK e morteiros. Escaparam sem baixas devido unicamente ao cair da noite. Não poderiam receber nenhum apoio de artilharia pois estavam além do alcance e também não receberiam nenhum apoio aéreo enquanto estivesse escuro. O inimigo ocupava os terrenos dominantes e atirava sobre eles das elevações ao redor, a partir de três direções diferentes. O fogo os deteu enquanto o inimigo deslocou uma força de guerrilha de seiscentos homens para fora do cânion. A companhia de reconhecimento atirou sobre os guerrilheiros que se retiravam, mas o plano era ter toda a força no interior do cânion bloqueando essa grande retirada. Entretanto, um pesado fogo inimigo impediu o comandante do grupo de reconhecimento de deslocar sua companhia dentro do cânion. Este, porém, conseguiu abrir caminho ao longo da crista da serra. Na manhã seguinte, 14 de agosto, o primeiro regimento da divisão pousou na Zona de Desembarque (Z Dbq) logo após uma preparação de artilharia. O inimigo sofreu algumas baixas, porém o objetivo da missão não foi atingido. O assalto ocorreu muito tarde e o inimigo já havia organizado a retirada de sua força principal através do cânion e para longe do nosso ataque.
O comandante da Divisão, Major-General Yarygin, recebeu mais algumas informações detalhadas sobre o inimigo e decidiu salvar a operação procedendo à etapa seguinte e capturando cachês de armas e munições e também destruindo a força de guerrilha nas vilas de Tzini-Khas e Zandekhkalai.
O restante da força de assalto aeromóvel tático consistia em um regimento aerotransportado comandado pelo Tenente-Coronel Solov’ev e um grupo de reconhecimento que eu comandava. O grupo de reconhecimento era formado por uma companhia de reconhecimento destacada e o regimento “Sarandoy” afegão que não havia sido infiltrado na noite anterior.
O plano do comandante da divisão era que às 1445 de 14 de agosto, a força de assalto decolaria de uma área próxima a Malikheyl’ em helicópteros Mi-8. A força seria infiltrada em uma área nos entornos de Tizini-Khas em três vagas, usando quatro Z Dbq. A primeira vaga estabeleceria posições de bloqueio até às 1830 e até às 1930 deveria ter uma plano de fogos organizado e implementado. O corpo principal viria a seguir e seria usado para destruir o inimigo naquela região e impedir que a força principal do inimigo se evadisse. Depois que o bloqueio foi estabelecido, cada companhia deveria enviar um pelotão para uma busca avançada. A primeira vaga incluiu o 2º Batalhão (180 homens em 18 Mi-8) e o 1º Batalhão (120 homens em 12 Mi-8) do 350º Regimento Aerotransportado. A segunda vaga incluiu o Posto de Comando Divisionário, o Posto de Comando Regimental, a companhia de reconhecimento regimental, uma companhia do 1º Batalhão (180 homens em 18 Mi-8) e o grupo de reconhecimento (120 homens em 12 Mi-8). A terceira vaga consistiu do grupo de reconhecimento transferido (180 homens em 18 Mi-8). Os pousos foram distribuídos de maneira que o 2º Batalhão desembarcasse na Z Dbq 01, o 1º Batalhão (- 01 Companhia) desembarcasse na Z Dbq 02, o grupo de reconhecimento desembarcasse na Z Dbq 04 e o restante desembarcasse na Z Dbq 03. A artilharia deveria realizar uma preparação nas Zonas de Desembaque de 1412 às 1428. Então, ataques aéreos bateriam as Z Dbq de 1430 às 1500. O apoio de aviação permaneceria no local desde o término do desembarque até às 1800.
O comandante do grupo de assalto aeromóvel cometeu um erro e colocou todos os meus grupos seis quilômetros a oeste da Z Dbq planejada. Nós tivemos que cruzar as montanhas para chegarmos à nossa Z Dbq correta. O fator surpresa havia sido perdido. Não encontramos nenhuma arma ou cachê de munição na vila de Tizini-Khas. Entretanto, um guia afegão nos explicou que os nomes de pequenas vilas impressos nas cartas não são necessariamente aqueles como as vilas realmente se chamam ou como os habitantes locais se referem a elas. Assim, esta vila era conhecida por Tizini-Khas. Na carta, aquela vila na verdade é chamada de vila de Zandekhkalai. Eu cerrei sobre Zandekhkalai, cerquei-a e concentrei minhas forças naquela região. Desalojamos forças de segurança do inimigo na vila e nas alturas dominantes que fechavam as vias de acesso ao cânion. Então, o grupo de reconhecimento iniciou a busca enquanto uma companhia aerotransportada e o regimento “Sarandoy” afegão nos cobriam.
Como resultado deste golpe de sorte, nosso grupo de reconhecimento matou aproximadamente 150 mujahedins e capturou sete cachês de munição. As ações hábeis do grupo de reconhecimento contribuíram para o cumprimento da missão da divisão.
Comentário da Academia de Frunze:
As primeira e segunda fases da operação foram cheias de erros. Durante a primeira fase, o desembarque ocorreu no final do dia e a aviação não pôde apoiá-los. Além disso, não havia artilharia de campanha com alcance para prestar apoio de fogo. A inteligência não uniu suas informações com as reais localizações na carta. Finalmente, as rotas de vôo e Z Dbq foram pobremente planejadas na segunda fase da operação.
Comentários dos editores norte-americanos:
A artilharia soviética, em teoria, permite que ocasionalmente os Grupos de Artilharia Divisionários sejam divididos para oferecer uma cobertura numa frente maior. Na realidade, no teatro europeu, isto nunca aconteceu. No Afeganistão, se tornou necessário para estender a cobertura e este capítulo mostrou um grupo divisionário dividido prestando o apoio de fogo.
Os soviéticos não tinham nenhuma dificuldade em passar elementos de reconhecimento de uma força em apoio a outra. A maioria dos comandantes ocidentais não cederiam de boa vontade de seus elementos de reconhecimento. Este capítulo mostra um exemplo típico de redistribuição das forças de reconhecimento em outras unidades.
A interpretação das cartas e navegação no terreno a partir de uma aeronave é difícil em uma região sem estradas de asfalto, linhas de alta-tensão, grandes rios e pontes permanentes. E também não é fácil no solo. A leitura das cartas é particularmente difícil em montanhas. O desempenho soviético nessa área se mostrou abaixo da média.
Comentário do Vôo Tático:
Em meados da década de 1980, os então soviéticos ainda não voavam com óculos de visão noturna e não havia apoio aéreo noturno, seja de asa fixa seja de helicópteros. Nessa mesma época, os países europeus estavam começando a usar esse tipo de equipamento e os americanos já operavam com eles nas unidades de operações especiais. Seis anos mais tarde, na Operação Desert Storm, a tecnologia da visão noturna já estava disseminada em praticamente todos os exércitos ocidentais mais desenvolvidos. Os russos só vieram a fazê-lo no final da década de 1990, durante o conflito da Chechênia.
Notem que nesta operação, os Mi-8 estão voando com 10 homens cada um, bem abaixo de sua capacidade nominal, que é de 26 a 28 homens. Os Mi-8 utilizados nessa época já eram da verão Mi-8MT (que a OTAN designou como Mi-17) com motores mais potentes. Mesmo assim, os Mi-8 sofriam de uma séria falta de reserva de potência. Isso será explorado também em artigos vindouros.
A respeito os comentários dos editores americanos sobre o desempenho soviético na navegação, estou preparando um artigo sobre como é realizada a navegação tática no Curso de Piloto de Combate. Mas vou esperar até o término do curso para publicar o artigo.
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